Sobre uma vida de anormalidades.
- Seguindo certa ordem cronológica:
Eu nunca precisei fazer nenhum procedimento cirúrgico. Eu nunca precisei nem colocar gesso em qualquer parte do corpo. Eu nunca caí de bicicleta nem nunca fui de brincar de carrinho.
Não gostava de assistir futebol e continuo não gostando, até hoje. Na escola eu não tinha amiguinhos, eu brincava no balanço sozinho... E me divertia.
No dia do brinquedo eu não levava brinquedos, eu me lembro de levar máscaras e fantasias. No dia da fantasia.... bom,eu ia de fantasia também.
Nunca tive namoradinhas. Não me lembro de nenhuma menininha do jardim ter pedido pra segurar minha mão, ou que quisesse fazer par comigo na festa junina.
Na adolescência não ia nas festinhas que todo mundo ia. Não frequento os lugares que a massa frequenta. Isso acontece até hoje.
Não fui o "menino legal da escola". Não sou até hoje.
Nunca fui um típico moleque grosso, que cospe no chão e coça o saco na frente dos outros. Pelo contrário, sempre odiei quem faz esse tipo de coisa. E isso também, isso eu continuo odiando.
Estava aonde ninguém estava. Estou sempre. Não sou o primeiro a ser escolhido pra qualquer grupo, nem o segundo, ou o terceiro... Não que eu queira que alguém sinta dó de mim, na verdade, o que eu menos quero é que a tenham.
O que eu estou tentando dizer é: Desde que me conheço por gente, nunca me encaixei em qualquer tipo de padrão, não fui do jeito que meus pais queriam que eu fosse. Acho que até hoje, meus pais ainda tentam me entender. Isso explicaria os 5 anos perdidos na terapia.
Nada foi fácil pra mim. Eu na maioria das vezes chegava em casa e me lamentava por tudo isso. Por que eu não era igual? Por que eu simplesmente não fingia que era, pelo menos?
Quase sempre sou alvo de piadinhas de muito mal gosto, mas sempre me mantive firme. Não que eu seja forte, mas sim porque eu ainda tenho o meu ego. Ferido, mas tenho. Ainda tenho meu pouquinho de dignidade.
Sempre tive que engolir todo tipo de brincadeirinha e fingir que não me importava. E eu realmente não me importo.
Mas às vezes o fardo pesa, entende?
Então teve uma época que eu parei de achar que o problema era comigo, e sim com os outros. E então meu psicólogo me disse:
"Não é muita pretensão achar que você está certo e o mundo inteiro julgando errado?"
E por que EU estaria errado e o mundo todo certo?
"I’m not an alien, I’m not a woman, I’m not a man and I’m not a creature of your government.
I’m all your dreams and I’m all your potential. I'm all your insecurities and your fears.
I’m your future… I’m everything that makes you sad and angry.
I’m you."

